domingo, 10 de junho de 2012

TEMA IV A REGULAÇÃO DOS SISTEMAS EDUCATIVOS



São quatro as mudanças que se operaram, ao nível externo e na última década, na construção do Espaço Europeu de Educação que influenciaram de forma muito profunda a natureza dos desafios que diferentes sistemas educativos enfrentam, bem como as respostas possíveis para a resolução desses desafios.
As transformações referidas são: i) mudanças no contexto político-económico mais abrangente; ii) mudanças na ‘arquitectura’ dos sistemas educativos, incluindo as suas relações com o capitalismo e a modernidade e as relações recíprocas entre eles; iii) mudanças quanto à ‘capacidade’ (concepções sobre o que é factível) e ‘mandato’ (concepções sobre o que desejável) dos sistemas educativos; e iv) mudanças quanto ao valor atribuído ao contributo dos sistemas educativos para a satisfação das exigências criadas por estas alterações de contexto.
Boaventura de Sousa Santos referiu que “O Estado deixou de ser a agência de controlo das articulações entre os três pilares da regulação moderna (Estado, mercado e comunidade), para se tornar servidor do mercado e redesenhar a comunidade para se tornar no mesmo” (citado por Dale, 2008, pág.2).
As correntes neoliberais Simplificando, o neoliberalismo abandonou alguns dos fundamentos essenciais da modernidade, com os quais viveu tanto tempo, mas que agora se tornaram obstáculos.
Segundo Bob Jessop (1999), as mudanças ocorridas entre 1975 e 2000 reportam-se às seguintes dimensões:
1)  O Estado deixa passa a ter um papel cada vez menos interventivo na Economia;
2) O Estado deixa de tomar a seu cargo as questões da segurança e do risco, nomedamente ao nível do Emprego, passando as mesmas a estar a cargo dos indívíduos. Ao nível da Educação onde a função económica deixa de ser o suporte da função social, para se inverterem os papéis;
3) O nacinal perde preponderância, para se colocar a ênfase no pós-nacional, refletindo a decadência da hegemonia nacional sobre a economia e as fronteiras e a concomitante propagação de organizações internacionais que assumem muitas das prerrogativas e responsabilidades outrora tidas como ‘nacionais’. Ao nível da Educação, o Estado deixa de ser o possuidor do privilégio exclusivo da governação.
(4) O Estado-Providência, que tudo faz e proporciona aos cidadãos, especialmente no que toca ao setor público, passa a rivalizar com uma enorme variedade de formas e agentes de actividades governativas. Na Educação, significa que a análise dos sistemas educativos deixa de ser feita, exclusivamente, ao nível do plano nacional.
A arquitectura dos sistemas educativos é constituída por quatro elementos: i) a modernidade; ii) os problemas fundamentais do capitalismo; iii) a ‘gramática’ da escola e iv) a relação da Educação com as sociedades nacionais. Os quatro elementos referidos concertam-se de formas diferentes e modificáveis para dar corpo à arquitectura em que assenta a ‘educação’ das sociedades contemporâneas.

Um grupo de teóricos que defende um modelo padronizado de educação à escala mundial, “baseado nos princípios do Iluminismo e aplicável de igual forma a todos os Estados-Nação.” (Dale, 2008, pág. 4).  Para John Meyer, os objetivos primordiais de um Estado moderno devem ser a promoção da igualdade individual e a concretização do progresso coletivo, que se materializam numa expansão homogénea.

Dale afirmou que a base da compreensão dos sistemas educativos habita no reconhecimento da sua relação com os problemas fundamentais do capitalismo, que ele, de per si não consegue estabelecer, necessitando do Estado para concretizá-lo (infra-estrutura perepare e desenvolva a força de trabalho de competências diversificadas; a sustentação da ordem e coesão social; e à legitimação das desigualdades inerentes ao sistema.

O termo “Gramática da Escola”, usado por Tyack e Tobin (1994), foi utilizado para explicar um conjunto de pressupostos e práticas organizacionais que decorreram do desenvolvimento da escola de massas.
A base temporal da educação está profundamente enraízada no tecido, ritmos e até no calendário das sociedades contemporâneas, através do conceito de ‘ano escolar (ou académico). A escolarização primária de pendor universalista é considerada como um primeiro passo para a erradicação da pobreza através dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, exigindo-se aos cidadãos que participem na Educação.
A Educação é vista como um emprego para profissionais, com consequências importantes para a oferta e as práticas de Educação.

Os sistemas educativos são os principais meios a qe os Estados “recorrem para procurar definir, replicar e assegurar a sua singularidade nacional, para reforçar as economias nacionais e responder aos problemas sociais e para influenciar a distribuição das oportunidades individuais.” (Dale, 2008, pág. 5), sendo esta a imagem em que assentam  as políticas educativas nacionais..

Os apelos sucessivos para que a Educação dê um maior contributo para o incremento da competitividade, fazem-se acompanhar com e opiniões que “a capacidade exigida para satisfazer este mandato não pode ser conseguida a nível nacional ou pelo sector público”. Isto significa que esse desiderato só será atingido se o contributo de instâncias transnacionais, como a União Europeia,  e com a participação do setor privado.

Os sistemas educativos são considerados deficitários no contributo para às agendas da competitividade e da Economia do Conhecimento/Aprendizagem ao Longo da Vida.
Os setores nacionais estão condicionados e dedicados a servir matérias e interesses muito mais amplos do que os exigidos na Estratégia de Lisboa e têm-se revelado inneficazes em atingir os seus objectivos.
Os sistemas educativos necessitam não de reformas, mas de transformações, tanto quanto aos fins como quanto aos meios. A agenda política dos decisores europeus, depois da Estratégiaa de Lisboa aconselha, segundo Rodrigues, citado por Dale a “definição de novas prioridades para as políticas educativas nacionais, isto é, transformar as escolas em centros abertos de aprendizagem, apoiar (todos) os grupos populacionais, a usar a Internet e multimédia” (Dale, 2008, pág.7).

As respostas a estas mudanças, constrangimentos e desafios, por parte da União Europeia, materializam-se no Tratado da Educação, que garante que a educação obrigatória é de responsabilidade nacional, totalmente sujeita à subsidiaridade. A Comunidade tem de respeitar inteiramente a responsabilidade dos Estados Membros pelo conteúdo do ensino, organização dos sistemas educativos e sua diversidade cultural e linguística.
A construção de um Espaço Educativo Europeu tem-se desenvolvido em três fases: i) Definir ‘Qualidade’ como base de comparação; ii) Construção de um Espaço Europeu de Educação através do Método Aberto de Coordenação; e iii) Aprendizagem ao Longo da Vida como um Programa  Integrado único.
Desta forma, podemos concluir que a União Europeia está a edificar um Espaço Europeu de Educação, sobre o qual detém o controlo, contribuindo para uma  e que neste processo veio a formar uma nova ‘Europa’ da Educação.

Bibliografia:
DALE, R. (2008). "Construir a Europa através de um Espaço Europeu de Educação", in Revista Lusófona de Educação, 2008, 11, pp. 13-30. Lisboa: Centro de Estudos e Intervenção em Educação e Formação (CeiEF) da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Disponível em http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/rle/n11/n11a02.pdf, acedido em 22/05/2012.

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